sábado, 12 de junho de 2010

A Mão

Ela olhou pela janela. O mundo lá fora a esperava e ela estava presa.
Ela ouviu passos.
Pessoas passaram por ela, dizendo coisas que ela simplesmente ignorou. Aquele sentimento de inferioridade que sentia tomou conta.
Às vezes ele vinha para atingí-la.
Outras, ela atirava-o aos outros. E assim vivia, recebendo e dando, machucando e sendo machucada, os movimentos eram feitos em um ciclo de ida e volta e por mais que em alguns segundos fizessem sentindo, logo vinha a onda de realidade lavar as impressões e as esperanças.

Havia uma mão estendida, implorando para ser segurada. Existia um caminho a ser seguido, mas que por alguma razão impertinente, estava coberto de raízes e árvores que impediam a sua passagem. Bloqueado.

Até que ela agarrou a mão.
E ela agarrou-a com tanta força que ambas sangraram. Mas, elas não se importaram. Uma mão começou a guiar a outra e assim, criaram uma nova trilha. Desempedida, limpa, livre!
Ela sentia o ritmo da vida em seus pés e corria descalça, descobrindo a verdade a cada passo, finalmente sendo quem ela realmente era! Ah! Que alegria sentia... E bastava-lhe.
Autosuficiência, pensava. Que idéia vã e tola, na verdade.
Não sentia-se só. Não... Ela tinha a mão que agarrara no ínicio intacta a ela. E esta, ela nunca abandonaria. Era a única força que lhe puxava cada vez mais para o que ela precisava.

Até que a mão desapareceu. Simplesmente sumiu. Deixou-a, como toda a ilusão ou sonho que ela agarrara antes.
E o ódio preencheu-a. Tão forte que ela assustou-se com o que tornara-se. Ela estava causando medo a si mesma apenas com a própria presença. Pensava "em que desgraça eu cai?".
Procurou reverter, procurou fugir, procurou achar-se. Mas, sem a outra ela não era nada. E o nada não lhe bastava.

Vivia por viver. Sentia por convenção. Vendia mentiras. Sem sentir nenhum remorso.
Revoltada em sua própria cápsula, ela começou a destruir-se. Fibra por fibra e quando restava apenas uma, ela percebeu...

Nunca existiu mão alguma. Ela estava sozinha o tempo todo. Quem ela pensou que a sustentava, na verdade, não era outra pessoa. Era, de fato, ela mesma. Perdera-se.

Hoje, ela torce para que as partes voltem a se juntar. Apenas torce. A verdade está ali, a pura. Ela crê... E tenta não destruir a própria fé, o que é quase impossível. Ela tenta acreditar no movimento e na reparação de cada coisa existente. Mas, isso já não faz mais parte de quem ela é. Para o bem ou para o mal, ela vive de realidades.

Hoje, ela reza.

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